Visita a Lisieux

Por Dalton Marques – membro da Pastoral da Comunicação

Eu e minha esposa viajamos à França para uma experiência de três meses morando e estudando no exterior. Aproveitávamos os finais de semana para explorar o país. Em um deles, visitamos a Normandia, no norte da França, e colocamos Lisieux, terra natal de Santa Teresinha em nosso roteiro. Próximo à Festa de nossa padroeira, compartilho com a comunidade essa abençoada visita.

Lisieux tem pouco mais de 20 mil habitantes. Mesmo assim, é a “capital” de uma região da Normandia conhecida como Pays d’Auge, famosa por seus bosques, prados verdejantes, pomares de maçã, fazendas de gado leiteiro, pequenos vilarejos de casas com madeirame à vista… e muita chuva! Chuva que foi e voltou várias vezes durante nossas horas na cidade.

Ao adentrarmos em Lisieux e constatarmos no GPS que estávamos há 400 metros da Basílica, já acostumados com a escassez de vagas nas cidades francesas, paramos o carro no primeiro local disponível que encontramos. Mal sabíamos que havia um estacionamento imenso para os visitantes e tivemos que enfrentar uma boa subida até chegar ao topo da colina onde está a Igreja. Por outro lado, fomos brindados com um caminho em meio aos jardins que circundam o morro e que destacam ainda mais o branco da Basílica ao fundo.

A edificação da Basílica teve início em 1929. Sua arquitetura em estilo neo-bizantino é inspirada na Igreja Sacre-Coeur (Sagrado Coração), localizada no bairro de Montmartre, em Paris. A construção tem 4.500 m². A extensão do prédio é de 104 m e sua cúpula tem 97 m de altura. É a segunda maior basílica da França, depois de Lourdes, sendo também o segundo maior destino de peregrinação do país. Por isso, conta com Centro de Acolhida, área para pique-nique e loja, que vende de livros e imagens até produtos típicos da região, como biscoitos amanteigados e bebidas à base de maçã. Um campanário de 40 m de altura, com mais de 50 sinos, completa o complexo.

É repleto de mosaicos o interior da Basílica de Sainte Thérèse de Lisieux (como os franceses a chamam; aliás, estou curioso para saber como ela recebeu no Brasil o diminutivo carinhoso que “transformou” a Teresa em Teresinha). Os desenhos mostram passagens da vida de Santa Teresinha na Terra, ela sendo recebida nos céus por anjos e seus ensinamentos, com destaque para as virtudes da fé, esperança, caridade, justiça, temperança, força e prudência. Os mosaicos fazem também menção aos títulos de Santa Teresinha: doutora da Igreja e patrona das missões.

O título de Doutora da Igreja foi concedido em 1997 pelo Papa João Paulo II, que destacou, conforme uma placa comemorativa da Basílica: “Entre os doutores da Igreja, ela é a mais jovem. Mas seu caminho espiritual ardente demonstra tanta maturidade e suas intuições sobre a fé expressas em seus escritos são tão vastas e profundas, que lhe dão o mérito de colocá-la entre os grandes mestres espirituais”. Além de placas comemorativas, locais para velas e imagens da Santa, a Basílica, que tem formato de cruz, conta com 18 altares menores em suas laterais. Os altares foram ofertas provenientes de diferentes países onde há devotos de Santa Teresinha, sendo um deles brasileiro.

Fotos de sua família e de sua vida no Carmelo também estão expostas na Basílica. Destaque para os pais de Santa Teresinha, Louis e Zélie Martin, canonizados em 2015. Ambos eram filhos de militares, sendo portanto criados de maneira severa. Os dois tentaram a vida religiosa, quando jovens, mas Louis não foi aceito por não saber latim e Zélie percebeu que aquela não era sua vocação. Além de Teresinha, tiveram outros 8 filhos, dos quais quatro morreram prematuramente. A educação que receberam dos pais, amorosos e bastante religiosos, influenciou para que outras duas irmãs de Teresinha também entrassem para o Carmelo. Sobre seus pais, Santa Teresinha escreveu:  “O Bom Deus me deu um pai e uma mãe mais dignos do Céu do que da Terra”.

Os quadros acima trazem ainda datas importantes da vida de Santa Teresinha (como o ingresso no Carmelo aos 15 anos e sua morte aos 25 anos) e a rotina no Carmelo à sua época. Curioso para saber como as religiosas passavam seus dias?

4h45 Despertar
5h Oração silenciosa
6h Oração litúrgica
7h Missa
8h Café da manhã (sopa) e trabalho
9h50 Exame de consciência
10h Refeição
11h Louças e relaxamento
12h Silêncio (soneca ou tempo livre)
13h Trabalho
14h Oração litúrgica
14h30 Leitura espiritual
15h Trabalho
17h Oração silenciosa
18h Ceia
18h45 Louças e relaxamento
19h40 Oração litúrgica
20h Silêncio (tempo livre)
21h Oração litúrgica
22h30 Deitar-se

A Basílica conta com uma bela Cripta. Concluída em 1932, sua decoração em mármore e mosaicos com predominância de tons de azul traz paz. Os mosaicos ilustram episódios da caminhada espiritual de Santa Teresinha, como seu batismo, primeira comunhão e engajamento na vida religiosa. A cripta tem também um santuário com relíquias dos santos Louis e Zélie Martin, pais de Santa Teresinha.

A visita à Basílica termina no Claustro da Misericórdia. Um espaço criado para meditação, ele evoca a história de Henri Pranzini, que tanto impacto teve sobre Santa Teresinha. Nascido em 1856, Henri assassinou três pessoas em Paris, quando tinha 29 anos. Alguns meses depois ele foi condenado à morte. Ao ler notícias sobre o episódio, Santa Teresinha, com apenas 14 anos, começa a rezar incessantemente pelo criminoso: pelo seu arrependimento e pela misericórdia de Deus. Conta-se que Henri não havia confessado até que chegasse o momento de sua execução. Com a cabeça já na guilhotina, de uma inspiração súbita ele se vira, pede o crucifixo de um padre e o beija por três vezes. Em seu livro História de uma alma, Santa Teresinha escreve “Sua alma receberá a sentença misericordiosa daquele que declara que no Céu haverá mais alegria por um só pecador que se arrepende do que por 99 justos que não precisam de penitência”. O espaço, com a estátua de um homem ajoelhado sem rosto, para evocar todos que demandam perdão, nos convida a refletir em tempos de tanto ódio como o de hoje, sobre nossas atitudes como pecadores e também nossa atitude diante de pecadores.

A 500 metros da Basílica fica o Carmelo de Lisieux, com uma incrível museologia, que expõe objetos de Santa Teresinha: as vestes com as quais ficou conhecida e é reproduzida em suas diversas estátuas, crucifixo, bíblia, materiais de costura, cadernos… O espaço traz ainda uma reconstituição do quarto de Santa Teresinha, ofertas de devotos e a cruz de seu primeiro túmulo no cemitério local, rabiscada à época com inúmeras mensagens de carinho daqueles que recebiam graças.

O Carmelo é também o local onde, em uma singela capela, estão os restos mortais de Santa Teresinha. Acima de tudo, o Carmelo, tal qual a Basílica, é mais um espaço de contemplação, oração e aprendizado com a querida Santa Teresinha que nos mostra como estarmos mais próximos de Deus e dos irmãos.

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